A expansão das plataformas de apostas esportivas no Brasil, intensificada após os marcos regulatórios de 2018, 2023 e 2025, consolidou um mercado que movimenta bilhões de reais mensalmente e captura milhões de usuários. Esta pesquisa investiga como marcadores sociais de classe, raça e geração estruturam vulnerabilidades diferenciadas frente às bets, partindo da hipótese de que essas plataformas instrumentalizam a precarização estrutural do trabalho e a representatividade racial para naturalizar a transferência de renda das periferias a agentes privados, operando como dispositivo ideológico do neoliberalismo.
A relevância do estudo decorre da rápida capilarização do fenômeno. Dados do Instituto DataSenado indicam que 33% dos apostadores têm entre 16 e 29 anos e 52% recebem até dois salários-mínimos. Levantamento da Abmes mostra que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos adiaram a graduação por gastos com apostas. Em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família destinaram R$ 3 bilhões às bets. O perfil majoritário dos usuários revela a incidência desproporcional sobre juventudes de classes populares.
O problema central consiste em compreender como precarização do trabalho, narrativas neoliberais de empreendedorismo e estratégias comunicacionais segmentadas por raça e classe contribuem para naturalizar as apostas como prática cotidiana juvenil. Entre os objetivos específicos estão: analisar como reformas trabalhistas e “uberização”, típica do capitalismo de plataforma (Snircek, 2016) criam terreno fértil para discursos de renda rápida; examinar assimetrias entre contratos publicitários com influenciadores periféricos versus celebridades; e investigar o uso performativo da representatividade racial como forma de reconhecimento simbólico desvinculado de transformação material.
O referencial articula três eixos: (1) a perspectiva geracional de Mannheim (1952) e Margulis & Urresti (1996), que compreende juventude como posição histórica marcada pela instabilidade laboral; (2) a crítica ao neoliberalismo em Dardot e Laval (2016) e Casaqui (2019), que analisam a internalização da lógica empresarial e a ressignificação do fracasso como oportunidade; (3) a Economia Política da Comunicação (Bastos, 2020), que permite situar as bets como aparelhos privados de hegemonia que organizam engajamento em torno de práticas exploratórias.
Realiza-se análise documental de dados estatísticos sobre o perfil de apostadores, revisão de reportagens sobre territorialização das bets em favelas (Agência Pública, 2025) e análise crítica de campanhas de Betnacional e Esportes da Sorte, examinando elementos discursivos, escolha de modelos e influenciadores e promessas articuladas. O recorte privilegia materiais que evidenciem a segmentação por classe e raça, incluindo contrastes entre cachês pagos a influenciadores periféricos (R$ 3 a 25 mil) e celebridades (milhões de reais).
Os resultados preliminares indicam que a inserção das bets nas periferias constitui estratégia deliberada de expansão baseada na exploração de vulnerabilidades históricas da população negra trabalhadora. O patrocínio de campeonatos de várzea e campanhas com influenciadores populares articulam pertencimento simbólico e promessa de mobilidade individual. As apostas emergem, assim, como síntese das contradições do capitalismo brasileiro contemporâneo: oferecem reconhecimento e expectativa de ascensão, ao mesmo tempo que aprofundam a extração de valor, convertendo precariedade estrutural em responsabilidade individual.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)